Daniela Fanti
Talvez por morar em cidade pequena desde que nasci, eu não tenha visto e vivido experiências tão intensamente como vi e vivi na Brás. Gente que trabalha. Gente que anda pelas ruas como se estivesse sem rumo. Crianças que brincam. Crianças que ajudam como podem no sustento da família.
Ao chegar à Vila, tentei me desprender do olhar sobre as coisas materiais. Decidi direcionar meu foco exclusivamente às pessoas, aos pensamentos, às reações, aos gestos. Muito mais do que problemas com trabalho, moradia, iluminação, percebi que as pessoas da Vila querem zelo e atenção, querem ser vistas e ouvidas.
A maioria com quem conversei me esboçou a mesma reação: timidez e resistência ao contato. Um olhar desconfiado que, mesmo por trás de tanta insegurança, mantinha-se firme até conseguir desvendar qual o meu real objetivo em estar tão interessada nos seus cotidianos. E, da mesma forma, por trás de minha expressão de destreza e total segurança, também tentava esconder meu sentimento de indignação diante de minha incapacidade de reverter a condição dos milhares de habitantes da Vila.
E é este sentimento de não-conformidade com as desigualdades e injustiças do mundo que move a profissão do jornalista. É a vontade de mudar, de fazer diferente, de começar do zero. É o desejo de dar às pessoas tudo aquilo que lhes cabe por direito. Estou tendo, nesta disciplina, a oportunidade de vivenciar uma realidade que não é a minha e de uma forma como se fosse profissional. Estou tendo a oportunidade de provar para mim mesma de que acertei “em cheio” na escolha da profissão.
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