sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Ela também encontrou o sorriso

Lílian Stein

Eu sabia, de certa forma, o que me esperava na segunda ida à Brás. Naquela manhã, além de bloco e caneta, eu levava também as lições que havia tirado da primeira visita. Consegui deixar de lado qualquer julgamento precoce, o que fez com que eu passasse a ver a comunidade como um poço de histórias que, independente da maneira, sempre seriam capazes de me fazer pensar.

Precisava primeiro encontrar as fontes da minha primeira matéria – estavam ansiosas para se enxergarem no jornal. Entrei em uma padaria qualquer porque, como a maioria das pessoas na Brás se conhece, imaginei que alguém pudesse me indicar a casa de alguma das meninas. Então, como em vida de jornalista as pautas surgem nos momentos em que menos se espera, encontrei a personagem de meu próximo texto bem antes do que poderia imaginar.

Tuane Fernandes tem 20 anos. Faz aniversário apenas alguns meses antes de mim. Nossas semelhanças, contudo, resumem-se à pouca idade. Conheci, na segunda visita à Vila Brás, uma garota que contraria os desejos e ambições da maioria dos jovens que conheço – e os meus também. Talvez essa tenha sido a grande lição do sábado, 25 de setembro.

Enquanto eu, acadêmica, planejo a tão esperada formatura, ela estudou apenas até a 8ª série. Meus sonhos, sempre capazes de alçar vôos tão altos, contrastam com o ambiente de uma casa humilde, cujo maior desejo da dona é apenas um espaço maior para criar os filhos que planeja ter. Sua vida resume-se ao trabalho na padaria da mãe e a cuidar do lar que construiu junto ao marido, com quem vive há quatro anos. Não vai a festas, não sai com as amigas – aliás, as amizades foram se perdendo na mesma proporção em que o relacionamento fazia aniversário.

Encontrar uma garota com a mesma idade que eu inevitavelmente me fez pensar em tudo o que tenho e no que construí ao longo dos meus apenas 20 anos. A maneira como vemos o mundo é completamente diferente. Temos objetivos distintos, pensamentos divergentes e sonhos em evidente contraste. Ainda assim, conversar com a Tuane mostrou-me a importância de compreender que existem muitos modos de encontrar um sorriso. Estava certa de que havia encontrado o meu. Fui surpreendida ao ver que, ainda que de modo tão mais difícil e diferente, ela encontrou o dela também.

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