Acessar a Vila Brás em um sábado pela manhã nos ensina a ver a vida por outro ângulo. Cotidianamente é o que busco, é o que anseio. Às vezes parece difícil deixar os pré-conceitos de lado e fugir do “jornalismo de aspas”. É difícil. Não impossível. Acredito que há mais por detrás das cortinas da Vila Brás. Afinal de contas, desembarcar de um ônibus com bloco de notas e canetas em mãos não podem ser requisitos básicos para encontrar uma pauta. O que deve ser exercitado é olhar de cada repórter. E naquela manhã de sábado, foi um olhar, em especial, que me chamou a atenção.
Eu estava na companhia dos colegas Adriano de Carvalho e Fabiana Eleonora. Entregávamos aos moradores da Vila a edição anterior do Enfoque. Quando vi Dona Alzira, escorada no marco da varanda de sua casa, em uma rua qualquer, em um momento qualquer, pensei: é aqui. O olhar de Alzira transmitia um universo de sentimentos. Não era só tristeza. Não eram só feridas. Ela tem um sonho. E por menor que seja, Alzira pensa em realizá-lo.
Aquela senhora analfabeta realmente mexeu comigo. Ela carrega uma história de vida memorável. Mas, agora, Alzira mergulhou num cenário repleto de conformismos. Ela não se importa se é diabética, se não sabe ler, se a filha é dependente química, se não tem dinheiro para comprar remédios. Ela reclama. Não se importa. O que dona Alzira me demonstrou na reportagem realizada para o Enfoque se resume em uma viagem ao passado: “Gostaria muito de encontrar uma comadre que não vejo há muitos anos”, confessa. Eu pergunto: “Este é seu sonho?” A voz de Alzira ecoa: “É o único sonho que tenho...”.
A Vila Brás é uma escola dos olhares incomuns.
Como aquele, de Dona Alzira.
Nenhum comentário:
Postar um comentário